Hoje eu não vim falar do Gabriel Ganley.Vim falar da insulina.

Hoje eu não vim falar do Gabriel Ganley.
Vim falar da insulina.
A mesma insulina que, segundo o que se investiga, pode ter tirado a vida de um rapaz de 22 anos no sábado é a insulina que me mantém vivo todos os dias desde que fui diagnosticado.
Eu não escolho aplicar. Eu preciso.
Enquanto a família dele chora uma perda que nenhuma palavra alcança, eu olho pra minha caneta e penso numa coisa que ninguém quer falar em voz alta:
Como é que um medicamento que diabético raciona pra durar mais, que falta em UBS, que custa caro, que a gente carrega na bolsa com gelo, com medo, com responsabilidade virou item de prateleira em vestiário de academia?
Não é sobre o Ganley. Ele já não está aqui pra se defender, nem pra explicar, nem pra contar a história dele do jeito dele. Que descanse. Que a família tenha paz.
É sobre quem está vivo.
É sobre o jovem que tá agora, nesse exato momento, pesquisando “como usar insulina pra ganhar massa” porque viu algum perfil dizendo que é o “segredo dos profissionais”.
É sobre o pai que não sabe o que o filho guarda na gaveta.
É sobre a namorada que acha que aquilo ali é vitamina.
Hipoglicemia severa não avisa. Não dá tempo. Não tem segunda chance quando acontece dormindo, sozinho, sem ninguém pra te dar açúcar, sem ninguém pra te escutar caindo.
Eu vivo com isso há anos. Já tive hipo no meio da madrugada acordando encharcado de suor sem entender onde estava. Já tive hipo dirigindo. Já tive hipo no meio de uma reunião fingindo que estava tudo bem enquanto o chão balançava.
Eu sobrevivi porque aprendi a respeitar isso tudo. Porque tenho médico. Porque tenho aparelho. Porque tenho histórico. Porque ENTENDO o que tá entrando no meu corpo.
Insulina não é suplemento.
Insulina não é atalho.
Insulina não é coragem.
Insulina é um hormônio que, na dose errada, no momento errado, sem comida, sem monitoramento mata em silêncio.
Pergunta pra qualquer diabético tipo 1. Ele vai te dizer a mesma coisa, com os olhos tremendo.
Que essa dor sirva pra alguma coisa.
Que esse luto não seja em vão.
Que alguém leia isso aqui e pense duas vezes antes de comprar achando que vai sair maior do que entrou.
Você pode sair menor. Você pode não sair.
eueabete #diabetes

Neno Ferreira é um repórter comprometido com a verdade e a transformação social.
Sua atuação é guiada pela defesa da igualdade, da justiça e da voz das comunidades.
No jornalismo, ele não apenas informa — ele representa e dá visibilidade a quem precisa ser ouvido


